History

Timeline, the spaces of the building, the master builders, the Dominican order and the interventions from the 19th to the 21st century.

1 — Timeline

De 1387 a 2026

Vinte e três marcos na construção, na destruição e no restauro do Mosteiro.

  1. 1387

    Início da construção do Mosteiro da Batalha sob encomenda régia, 2 anos após a Batalha Real (Aljubarrota), com o mestre Afonso Domingues a cargo do estaleiro.

  2. 1388

    Doação do Mosteiro à Ordem dos Pregadores (frades dominicanos), que utilizaram uma igreja mais modesta — Santa Maria-a-Velha — para o culto enquanto decorriam as obras na nova.

  3. 1406

    Com a morte de Afonso Domingues, o estaleiro de obras ficou sob a responsabilidade do segundo mestre de obras — Huguet — que deu continuidade aos trabalhos.

  4. 1435

    Encontra-se concluída a fachada ocidental da Igreja do Mosteiro, bem como a Capela do Fundador, destinada ao sepultamento de D. João I.

  5. 1437

    Início da construção do novo complexo funerário que ficaria conhecido como «Capelas Imperfeitas», sob encomenda do rei D. Duarte.

  6. 1438

    Huguet morre e Martim Vasques passa a mestre de obras principal do Mosteiro durante a regência do Infante D. Pedro, correspondente ao início do reinado de D. Afonso V.

  7. 1448

    Fernão de Évora, sobrinho de Martim Vasques, fica responsável pelo estaleiro de obras e é iniciado o Claustro de D. Afonso V, patrocinado por esse monarca.

  8. 1491

    Mateus Fernandes é reintegrado no estaleiro de obras do Mosteiro como mestre principal.

  9. 1515

    Morre Mateus Fernandes, sepultado na igreja do Mosteiro, e sucede-lhe João de Castilho como mestre de obras.

  10. 1551

    Foi instituído um Colégio Teológico Superior no Mosteiro — o Colégio de São Tomás.

  11. 1755

    O grande terramoto de Lisboa também afetou o Mosteiro, nomeadamente com a ruína do coruchéu que encimava a Capela do Fundador, bem como a destruição de muitos dos vitrais medievais.

  12. 1789

    James Murphy tem uma estadia de 13 semanas no Mosteiro, durante as quais faz os levantamentos que originaram a célebre publicação internacional Plans Elevations Sections and Views of the Church of Batalha.

  13. 1810

    A terceira invasão napoleónica passou pelo Mosteiro, ao qual foram infligidos diversos atos de vandalismo por parte das tropas francesas, nomeadamente o incêndio da biblioteca, que se propagou pelos claustros da Botica e da Portaria.

  14. 1834

    Com a extinção das ordens religiosas em Portugal, os frades dominicanos abandonam o Mosteiro, o que contribuiu para a sua degradação e dispersão do património artístico que continha.

  15. 1840

    Inicia-se, no Mosteiro da Batalha, o primeiro grande restauro monumental em Portugal, inicialmente dirigido por Luís Mousinho de Albuquerque e, a partir de 1843, por Lucas dos Santos Pereira.

  16. 1907

    O Mosteiro da Batalha é distinguido como Monumento Nacional.

  17. 1921

    Instalação do túmulo e memorial ao Soldado Desconhecido na Sala do Capítulo do Mosteiro.

  18. 1940

    São deslocados túmulos da igreja para as Capelas Imperfeitas, como parte de uma segunda campanha de restauros levada a cabo pela Direção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais.

  19. 1983

    O Mosteiro da Batalha passa a integrar a lista de Património da Humanidade da UNESCO.

  20. 1996

    São guardados em reserva técnica alguns dos vitrais medievais ainda existentes nas janelas das naves laterais da igreja, com vista à sua preservação.

  21. 2014

    São levadas a cabo obras de conservação e restauro nas coberturas pétreas da igreja, bem como no coruchéu do Mosteiro, consolidando-os.

  22. 2024

    Consolidação e restauro da estrutura de madeira que cobre a Sala do Capítulo, bem como substituição das telhas cerâmicas, restaurando-se também o campanário.

  23. 2026

    São concluídas as campanhas de conservação e restauro dos vitrais da capela-mor da igreja e da Sala do Capítulo, bem como das Capelas Imperfeitas.

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2 — Building

Os oito espaços do Mosteiro

Cada espaço corresponde a uma campanha de obra e a um mestre. As dimensões abaixo são as que o próprio edifício regista.

  • 80 × 22 mIgreja, planta
  • 30 mAbóbada do transepto
  • 113 m²Sacristia
  • 361 m²Sala do Capítulo
  • 50 × 50 mClaustro de D. João I
  • 44 × 44 mClaustro de D. Afonso V
2.1

Igreja

Espaço litúrgico conventual por excelência, esta é uma igreja de dimensões catedralícias e de um programa artístico igualmente amplo. A cabeceira da igreja é a parte mais antiga do Mosteiro da Batalha, constituída por uma capela-mor entre dois pares de capelas colaterais geminadas, todas intercomunicantes, e que desembocam no vasto transepto cuja abóbada se aproxima dos 30 metros de altura. As três naves da igreja, escalonadas, compreendem 8 tramos e desembocam no magnífico portal ocidental.

O programa escultórico deste portal ocidental, da responsabilidade de mestre Huguet, contrasta com o portal sul da igreja, da autoria de Afonso Domingues, e aproxima-se às propostas dos modelos catedralícios franceses, englobando como cenas principais: Cristo entronizado e rodeado pelos Evangelistas; a coroação da Virgem por Deus; ou ainda o monumental conjunto de apóstolos, sob as arquivoltas onde se encontram representados anjos, profetas, reis de Judá e santos mártires, todos de uma elevada qualidade escultórica, demonstrativa da importância e presença artística internacional nesta obra.

Na capela-mor da igreja situa-se o espetacular conjunto de vitrais, que compreende várias peças do século XVI, organizando-se como um retábulo iluminado. A sua autoria pertence a mestres pintores de retábulos, como Francisco Henriques, que foi também autor do vitral da Sala do Capítulo.

2.2

Sacristia

Localizada entre uma das capelas da igreja e a Sala do Capítulo, a Sacristia do Mosteiro da Batalha assume proporções monumentais, com 113 metros quadrados de área no seu interior. Este é um espaço de apoio às cerimónias litúrgicas na igreja, mas que também poderia acolher cerimónias litúrgicas próprias, guardando-se nela, ao longo da história do Mosteiro, paramentos sacerdotais, missais, as diversas alfaias, imagens e relíquias.

O espaço arquitetónico foi delineado logo na primeira fase de construção, a cargo do mestre de obras Afonso Domingues. Uma vez concluídas, as abóbadas receberam importantes pinturas realizadas diretamente sobre a pedra, parte de um programa decorativo datável do reinado de D. Duarte. Em 1778, após ter acabado o retábulo para a capela de Nossa Senhora do Rosário, na igreja, o entalhador António Pereira da Silva recebeu a encomenda dos arcazes com os respetivos espaldares, e um retábulo para a Sacristia. Neste encontra-se uma pintura do século XVI, representando Nossa Senhora do Rosário.

Já durante a campanha de restauro do século XIX, que procurou reparar a sacristia dos estragos provocados pelas invasões napoleónicas no início dessa centúria, foram criados novos vitrais para este espaço com as representações dos quatro Evangelistas.

2.3

Capela do Fundador

Iniciada por volta de 1415, a Capela do Fundador foi encomendada por D. João I para seu sepultamento, da sua esposa e de parte dos infantes seus filhos. A obra foi inteiramente da responsabilidade de mestre Huguet, até à sua conclusão em 1435, e constitui um programa arquitetónico inovador no cenário ibérico do seu tempo para edifícios desta tipologia. De planta quadrada, com um corpo central octogonal mais elevado, este edifício foi coroado por um grandioso coruchéu que ruiu com o terramoto de 1755.

No seu interior, a delicadeza dos pilares, das nervuras das abóbadas, da ornamentação escultórica, bem como a grande extensão das janelas que proporcionam um efeito lumínico sublime, seriam complementados pelas pinturas e dispositivos litúrgicos outrora existentes. Juntamente com o programa coerente de tumulária e heráldica, transformavam este panteão dinástico num espaço cerimonial sumptuoso.

Ao centro observa-se o túmulo conjunto de D. João I e D. Filipa de Lencastre; no alçado sul encontram-se os túmulos dos infantes seus filhos: D. Fernando, D. João, D. Henrique e D. Pedro; e no alçado poente foram acrescentados, no final do século XIX, túmulos revivalistas contendo os restos mortais de D. Afonso V, D. João II e do infante D. Afonso. A extinção da comunidade conventual, em 1834, teve como consequência o despojamento desta capela funerária de toda a sua componente litúrgica.

2.4

Claustro de D. João I

De dimensões condizentes com a grandeza da igreja (50 × 50 metros), este primeiro claustro foi iniciado sob direção de mestre Afonso Domingues e terminado pelo seu sucessor, Huguet, na década de 1430. Enquanto espaço de circulação primordial, o claustro ligava os espaços litúrgicos e funcionais essenciais à vida da comunidade, nomeadamente: igreja, Sala do Capítulo, lavatório, refeitório, entre outros.

A proporção das suas galerias revela uma eloquência presente desde o início, bem como a ornamentação, em particular com destaque para o pavilhão do lavatório, cuja delicadeza ornamental se eleva ao nível do que podemos verificar em espaços cerimoniais como a Capela do Fundador, onde o mesmo mestre de obras — Huguet — dirigia os trabalhos.

O interior das arcadas do claustro de D. João I receberia nova escultura ornamental no início do século XVI, durante o reinado de D. Manuel I, porém no pavilhão do lavatório permanece ainda alguma da ornamentação do início do século XV. Também no início do reinado de D. Manuel I procedeu-se à adaptação de um espaço pré-existente (depois nomeado Adega dos Frades) para funcionar como nova Sala do Capítulo, uma vez que a original se encontrava com os túmulos de D. Afonso V e do seu neto, assumindo funções de capela funerária; tal adaptação explica a criação de um novo portal de acesso desta época, atribuído ao mestre de obras Mateus Fernandes.

2.5

Sala do Capítulo

Esta sala quadrangular, com uma área de 361 metros quadrados, que servia para a reunião dos frades — o Capítulo —, foi iniciada na primeira fase de construção do edifício, então a cargo de mestre Afonso Domingues. À época, as tipologias de cobertura em pedra mais habituais para um espaço monástico desta dimensão requeriam o uso de pilares de suporte, para a subdividir em diversos panos de abóbada.

No caso do Mosteiro da Batalha, a conceção da abóbada da Sala do Capítulo foi já da responsabilidade do segundo mestre de obras do edifício: Huguet, que dirigiu os trabalhos de construção desde a primeira década do século XV até à sua morte, em 1438. Com efeito, construiu-se uma enorme abóbada com múltiplas nervuras em formato estrelado e sem qualquer suporte central, o que, dada a opção pelo abobadamento em pedra, constituiu um feito notável.

A abóbada da Sala do Capítulo é um dos exemplos da excelência dos mestres de obras contratados para o estaleiro da Batalha, conciliando o respeito pela integração da obra precedente com a introdução de soluções arquitetónicas inovadoras, produzindo um efeito de conjunto esteticamente impressionante: quer na dimensão estrutural, quer na delicadeza dos detalhes que ornamentam este espaço. Sobre a abóbada de pedra encontram-se três asnas em madeira sobre as quais assentam telhas cerâmicas, bem como o campanário que coroa esta parte do edifício.

2.6

Refeitório

Este vasto espaço longitudinal, situado em alinhamento com a ala poente do Claustro de D. João I, é coberto com uma grande abóbada de berço quebrado que se apoia em paredes massivas, contrastantes com a elegante distribuição de volumes e cargas de outras partes do edifício.

A grande contenção ornamental deste espaço, iluminado por janelas situadas a um nível alto, é somente interrompida pelo belíssimo púlpito que se localiza no alçado sul, e que contém os brasões de D. Duarte e D. Leonor (o púlpito atualmente visível é uma réplica e o original encontra-se preservado em reserva). O espaço do antigo refeitório alberga atualmente o Museu da Liga dos Combatentes.

2.7

Claustro de D. Afonso V

O início da construção de um novo claustro em 1448, patrocinada pelo rei D. Afonso V, deveu-se certamente à necessidade dos frades dominicanos disporem de um conjunto mais alargado de dependências funcionais, bem como de dormitórios com celas individuais (ao invés de um grande dormitório coletivo, como estaria inicialmente previsto).

Este carácter funcional, mais doméstico (com espaços de estudo e de armazenamento diversos), terá uma relação com a maior austeridade arquitetónica que se pode observar neste claustro (com 44 × 44 metros de dimensão), bem como com o recurso à criação de um piso superior para albergar as celas conventuais. A obra ficou a cargo do mestre de obras Fernão de Évora e prolongou-se até 1477.

2.8

Capelas Imperfeitas

Em 1437 é iniciado o segundo edifício funerário encomendado para o Mosteiro da Batalha. O rei D. Duarte foi o responsável pela iniciativa ambiciosa que seria destinada não só ao sepultamento do próprio, como também dos monarcas subsequentes. Assim se explicam o desenvolvimento das sete capelas radiantes com as respetivas sacristias e a dimensão ousada deste prolongamento do Mosteiro no sentido longitudinal da igreja, atrás da capela-mor.

O edifício foi inicialmente delineado pelo mestre de obras Huguet, que viria a morrer no ano seguinte, tendo Martim Vasques assegurado a continuidade das obras no seu lugar. Após um período de estagnação da obra durante a maioria do reinado de D. João II, esta ganharia novo impulso a partir da reintegração de Mateus Fernandes como mestre de obras do estaleiro, em 1491. No início do reinado de D. Manuel I, este mestre concebe um novo tipo de abóbadas, informado pelos modelos internacionais do seu tempo e parcialmente aplicado às capelas radiantes, erguendo um novo portal interior de complexa e exuberante decoração.

O desinteresse posterior de D. Manuel I por este edifício e a sua opção pelo sepultamento no Mosteiro de Santa Maria de Belém, em Lisboa, viriam a contribuir para a não conclusão das Capelas Imperfeitas, pese embora um último fôlego da obra, já no reinado de D. João III. Atribuível ao mestre de obras João de Castilho, esta etapa compreende o abobadamento parcial do átrio de ligação entre a igreja e o espaço funerário, bem como os arcobotantes da capela-mor e a varanda renascentista que preconiza já uma terceira e última proposta de acabamento, numa linguagem arquitetónica distinta.

3 — Master builders

Os seis mestres do estaleiro

O Mosteiro da Batalha foi o estaleiro mais importante do reino de Portugal, com uma organização administrativa complexa na qual, em última instância, era o Rei o responsável por financiar e atrair a mão de obra qualificada e necessária, transformando-se o estaleiro de obra num centro de aprendizagem artística.

  • 3.1 · até 1406

    Afonso Domingues

    O primeiro mestre de obras do Mosteiro, português, fizera a sua aprendizagem na reconstrução do deambulatório da Sé de Lisboa, durante o reinado de D. Fernando I, dirigindo depois obras cruciais em Santarém: a estrutura funerária de D. Fernando I, na igreja do convento de S. Francisco, e a igreja do convento da Graça. Foi responsável pelo plano e início das obras da igreja e de algumas dependências do claustro de D. João I, bem como pela obra da sacristia.

  • 3.2 · 1406 — 1438

    Huguet

    A arquitetura delineada por este mestre estrangeiro é simultaneamente inovadora e subtil: capaz de desenvolver volumes inteiramente novos — as várias capelas funerárias, com soluções pioneiras no cenário ibérico — e de concluir estruturalmente espaços planeados por Afonso Domingues, com quem chegou a trabalhar. Uma linguagem própria, ancorada em modelos franceses, que transforma o Mosteiro numa obra-prima da arquitetura europeia do seu tempo.

  • 3.3 · 1438 — 1448

    Martim Vasques

    Terceiro mestre de obras, dirigiu os trabalhos durante a regência do Infante D. Pedro. A arquitetura dessa época pautou-se pela continuidade com a obra de Huguet, sobretudo no avanço do panteão régio comissionado por D. Duarte I: foi sob a sua direção que se procedeu ao levantamento das paredes, conforme o plano de Huguet, e de algumas abóbadas das capelas radiantes.

  • 3.4 · 1448 — 1477

    Fernão de Évora

    Sobrinho de Martim Vasques, deve ter sucedido à morte do tio logo em 1448 como mestre principal da obra. O edifício que lhe é comummente atribuído é o Claustro de D. Afonso V, conhecido tanto pelo seu despojamento como por ser o primeiro claustro português conhecido com dois andares. Dentro do mesmo gosto, terminou a Adega dos Frades, iniciada por Huguet.

  • 3.5 · 1480 — 1515

    Mateus Fernandes

    Documentado como mestre principal em 1480, foi dispensado da obra da Batalha por D. João II, que o viria a readmitir dez anos mais tarde. A partir de 1495 recebe de D. Manuel I o encargo não apenas de concluir o panteão de D. Duarte, mas também de realizar uma grande reforma no Claustro de D. João I. A obra realizada mostra que, na sua ausência, teve necessariamente que conhecer e trabalhar noutros grandes estaleiros castelhanos — nomeadamente Burgos e Toledo.

  • 3.6 · a partir de 1515

    João de Castilho

    Por imposição testamentária de seu pai, D. João III encarregou este arquiteto de origem cantábrica de dar continuidade ao projeto de conclusão das Capelas Imperfeitas. Dirigindo várias obras em simultâneo, veio do estaleiro do Mosteiro de Santa Maria de Belém, passando pelo de Alcobaça, rumo ao seu projeto de uma vida — o Convento de Cristo. A obra da Batalha é uma curta estância de quase cinco anos.

4 — Dominican order

A Ordem dos Pregadores no Mosteiro

Doação do Mosteiro e vocação conventual

Em 1388 o Mosteiro da Batalha foi doado pelo rei D. João I à Ordem Terceira de S. Domingos. Esta ordem religiosa, fundada em 1216, seguia a Regra de Santo Agostinho e os chamados frades pregadores seguiam votos de obediência, pobreza e de vida casta. A alimentação dos frades era moderada e simples, tomando duas refeições diárias — almoço e jantar — e praticando jejum em determinadas ocasiões. As refeições eram precedidas pela lavagem das mãos e acompanhadas, no refeitório conventual, pelas leituras de elevação religiosa, tais como o Martirológio ou o Santoral.

Para além do ofício diário (8 momentos de oração) e da pregação, os frades dominicanos tinham também uma vocação para o estudo e o ensino, o que, no caso do Mosteiro da Batalha, adquiriu a dignidade de colégio teológico superior, estabelecido em 1551 com a designação de Colégio de São Tomás, com Frei Bartolomeu dos Mártires.

O inventário conventual e os últimos anos da comunidade

A 17 de fevereiro de 1823, o escrivão José Maria Bello dos Reis redigiu o inventário do Mosteiro da Batalha, ali referido como «Convento de Sam Domingos», onde vivia ainda a comunidade de frades dominicanos. O inventário revela-nos uma comunidade de religiosos já muito diminuída, quer em número, quer em posses, que habitava um edifício que fora bastante danificado pelas invasões napoleónicas. Tentava-se a custo manter a funcionalidade para que fora criado e que levara a que se expandisse durante os dois primeiros séculos de existência. Nessa altura, o Mosteiro possuía ainda quatro claustros e uma cerca conventual.

Os objetos inventariados eram necessários tanto ao culto nos numerosos lugares de oração existentes no edifício, como ao uso dos espaços ligados à vivência quotidiana dos frades: o refeitório, a cozinha, a despensa, os armazéns de azeite e de vinho, o lagar, o celeiro, mas também a livraria ou a hospedaria, entre outros. Era então prior do convento Frei Francisco Henriques de Faria.

Este inventário surgiu a mando do governo, num período subsequente à instauração da Monarquia Constitucional, em 1822. Representa também um ponto de situação do convento poucos anos antes da extinção das ordens religiosas masculinas em Portugal, que veio a ter lugar em 1834, e por isso mesmo é uma fonte de informação imprescindível à compreensão histórica do Mosteiro da Batalha.

5 — 19th to 21st century

Restauros, obras públicas e musealização

Os restauros do século XIX

A 7 de novembro de 1840 teve início a primeira grande campanha de restauros do Mosteiro da Batalha. Após as invasões napoleónicas (que afetaram o Mosteiro em 1807 e 1810) e o abandono consequente à extinção das ordens religiosas (em 1834), certas partes do edifício encontravam-se em estado de ruína, o que levou à demolição de dois claustros, bem como à reparação de juntas, janelas, ou mesmo à feitura de alguns arcobotantes e platibandas, entre outros elementos.

O rei consorte D. Fernando II foi o grande impulsionador das obras de restauro e do mecenato associado às mesmas. O arquiteto irlandês James Murphy, o inspetor-geral de Obras Públicas Luís Mousinho de Albuquerque (demitido do cargo em 1843) e o arquiteto Lucas José dos Santos Pereira (que passou a dirigir as obras de restauro após 1843) foram também figuras centrais nos trabalhos que prosseguiram até ao final do século XIX e que alteraram de forma definitiva a forma como se apresenta este monumento.

As obras públicas do século XX

Em 1921, já durante a Primeira República, estabelece-se na Sala do Capítulo um memorial militar ao Soldado Desconhecido, com a tumulação de dois soldados portugueses que participaram na Primeira Guerra Mundial. Esta associação do monumento a uma narrativa militarista e celebrativa seria reforçada pela posterior instalação do Museu das Oferendas ao Soldado Desconhecido no espaço do antigo refeitório conventual, bem como pelas intervenções ocorridas entre as décadas de 1930 e 1960, não somente no monumento como no espaço urbano ao seu redor.

Nessas campanhas, diversos elementos ornamentais que tinham sido adicionados pelos restauros do século XIX foram removidos, bem como elementos litúrgicos e ornamentais da época da comunidade conventual: por exemplo, o grande retábulo do Senhor Jesus, que se situava no braço norte do transepto da igreja (recolocado em 1946 na igreja do antigo convento das Trinitárias, no Rato, em Lisboa), o retábulo da capela de N.ª Sr.ª do Rosário (recolocado na igreja matriz da Covilhã), ou ainda o retábulo em pedra da capela de S. Miguel, conhecida também por capela dos Sousas (recolocado na igreja paroquial da Batalha). Também em 1940 foram retirados diversos túmulos da igreja do Mosteiro para serem recolocados nas Capelas Imperfeitas, entre eles o túmulo de D. Duarte e D. Leonor, que se encontrava na capela-mor da igreja.

No espaço exterior ao redor do monumento, em particular a sul e a poente, realizaram-se demolições significativas do edificado urbano (entre os quais alguns edifícios do século XVI), que deram lugar às duas praças atuais. Estas intervenções culminaram na inauguração da estátua equestre de Nuno Álvares Pereira, de 1967, da autoria do escultor Leopoldo de Almeida.

A entrada para a UNESCO e a vocação museológica

Em 1980 foi criado o Museu do Mosteiro de Santa Maria da Vitória, que assumiu, doravante, a obrigação do Estado Português de proporcionar os meios necessários à compreensão e fruição do monumento. Procura-se alcançar este objetivo fomentando a investigação histórico-artística e arqueológica dos edifícios e disponibilizando, de forma acessível, o conhecimento daí resultante aos públicos mais diversos, incluindo escolas, universidades, visitantes portugueses e de outros países. A gestão e centralização da informação histórica e artística relativa ao monumento cabe ao Centro de Informação e Documentação do Mosteiro, que dispõe de uma biblioteca especializada e de um arquivo histórico abertos ao público.

Em 1983, o Mosteiro da Batalha é inscrito na Lista de Património Mundial da Humanidade (UNESCO). Atualmente, o Mosteiro é um serviço que depende da Museus e Monumentos de Portugal, E.P.E., em cujo quadro é gerida a conservação do monumento.

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